quarta-feira, 7 de julho de 2010

Book

                     

                              

Matilde Rosa Araújo

Matilde Rosa Araújo


O telefone despertou-me. A notícia arrancou-me da cama. Matilde Rosa Araújo, a minha querida Matilde partira. Não mais irei ouvir a sua voz dizendo num murmúrio: Fátima, quero muito que fique bem. Não mais me dirá que estamos ambas à espera... Agora só eu espero.
Conhecemo-nos há 32 anos, em 1978. Nesse encontro nasceu uma amizade que cresceu até ter o tamanho que hoje tem. Matilde é e será sempre a escritora, a amiga, a irmã. Durante o último ano, após a descoberta da minha doença, e até Outubro, mês em que também adoeceu, telefonava-me duas vezes por dia, de manhã e à tarde e depois dessa data uma vez por dia. Ligávamos uma à outra à vez. E acabávamos quase sempre com palavras de esperança. Apesar de sabermos que ambas estávamos à espera...
Como parecem já distantes, apesar de tão presentes, os nossos encontros na sua sala, repleta de livros, fotos e diversos objectos, alguns vindos da infância. Matilde então surgia toda inteira, varria a amargura e sorria-me com os seus olhos de menina, voltava a ser a "laranjinha" de sua mãe, a mesma que um dia recebera de presente a Januária. Conversávamos muito e ríamos, enquanto bebericávamos chá, servido em bule de porcelana, provavelmente da China, ou talvez não. Uma vez abriu uma garrafa de Porto com mais de cem anos e brindámos, brindámos a muita coisa, e rimos. Quantas vezes, nessas tardes, Matilde deixou ver o seu finíssimo humor, a sua certeira ironia, a sua delicada crítica a situações e pessoas. E as histórias... E as anedotas... Com quem irei partilhar agora o que partilhava com ela?
Há pouco apetecia-me enfiar-me num buraco e enchê-lo com as minhas lágrimas. Mas não o fiz. Em vez disso estou aqui a partilhar convosco a minha dor.
A Capuchinho Cinzento dorme agora o seu último sono, talvez sentada «numa pedra cheia de musgo. [...] Nem uma rainha de outros tempos descansaria assim num trono de veludos!» Passaritos de cristal, «Cantem! Cantem! Não deixem de cantar», mas cantem baixinho para não a acordarem. E continuem a voar e a cantar para levarem a sua história, uma história «de claros segredos», aos quatro cantos do coração das pessoas.



F.R.M.



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