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domingo, 7 de fevereiro de 2016

. Dos Meus Livros: Eva Luna - Isabel Allende

. Dos Meus Livros: Eva Luna - Isabel Allende: Comentário : Quem decide ler um romance de Isabel Allende não pode esperar grandes surpresas: terá a certeza que vai ler um livro exc...

Avenidas periféricas

Resumo: O mais recente Prémio Nobel da Literatura, Patrick Modiano, apresenta agora pela Porto Editora um romance inédito em Portugal, vencedor do Grande Prémio de romance da Academia Francesa e igualmente distinguido com o Grande Prémio Nacional das Letras. Galardões à parte que atestam, incontornavelmente, o seu mérito, desperta-se em nós a curiosidade sobre o que terá consagrado o autor. A crítica do Jornal Le Monde imprime a expresãoModianesco como um neologismo instalado: um tom angustiado, um ambiente de penumbra e enigmático, um fio invisível nem sempre perceptível ao leitor, uma inquietação insatisfeita, identidades perdidas, características tão ao gosto do clássico existencialismo francês.
Numa pequena aldeia ao lado da floresta de Fontainebleu, um bosque de faias, em plena ocupação provisória alemã, portanto entre 1940 e 1944, juntam-se ao fim de semana algumas personagens inquietantes, que abrem espaços cénicos de uma alta burguesia misteriosa e intocável. Alexandre Serge é o narrador protagonista e pelos seus olhos vemos um retrato social, uma mundividência burguesa alambicada, olhares fleumáticos, esgares silênciosos e obscursos, atitudes langurosas de personagens escorregadias, dúbias que se movem em ambientes intimistas de convívio sem relações de confiança. Murraille é chefe do jornal C'est la vie e pivot de muitas movimentações do romance, elo de ligação e de encontro de muitas personagens como é o caso do protagonista e de seu pai, um desconhecido barão a que chamam Chalva Henri Deyckecaire. A relação entre eles é fria, distante, perdida. Quem é esse pai? Um traficante, um judeu acossado, um industrial com relações duvidosas e hábitos pouco recomendáveis? A demanda de Alexandre prossegue ao longo do romance na senda de revelar a personagem de seu pai, que tinha como principal actividade vender objectos a coleccionadores fanáticos, obnubilados, desde antigas listas telefónicas, espartilhos, narguilés, postais, selos, cintos, fonógrafos, candeeiros de acetileno. Assim, procurava em Paris todo o tipo de utensílios que pudessem suscitar interesse a esses coleccionadores, extorquia-lhes grandes quantias sem qualquer relação com o valor real das mercadorias. A ânsia de aproximação a este pai desconhecido, enigmático leva o filho a tornar-se um moço de recados, querendo dar provas de iniciativa própria e de ajuda incondicional. Com o tempo, Alexandre sugere ao pai dedicarem-se aos bibliófilos, convicto de que seria fácil arranjar edições antigas a preços baixos, rentabilizando todo o conhecimento e formação que tinha adquirido no Colégio interno de Bordéus onde o pai o tinha ido buscar, com 17 anos. Com o tempo foi-se dedicando à falsificação de assinaturas dos autores e convertendo-se num factótum.
Num tempo desconexo, não linear dentro do romance, o narrador invoca o seu repositório de (poucas) lembranças, recordando o mais triste episódio da sua vida, quando o pai o tentara atirar para debaixo da linha do comboio. Surpreenda-se o leitor com o tom com que estas cenas são descritas, sem mágoas, sem traumas, como se o tempo fosse responsável por detê-las no passado sem reminiscência presente. Os flashes dos espaços e do tempos, sem continuidade ou progressão fixam os acontecimentos em cenas estáticas, suspenas e intensas. Há um momento de encontro de pai e filho, um jogo de silêncios indecifráveis, num olhar comprometido do Barão e no desespero inverbalizado de Alexandre, que reclama pela presença paternal que mais não é do que espectral, como ele próprio afirma: “Eis-nos condenados, órfãos que somos a perseguir um fantasma em reconhecimento de paternidade”.
Que avenidas são estas? São avenidas paralelas, de penumbra, colaterais, que nunca desembocam na verdadeira anagnórise ou (re)conhecimento da essência, da identidade, meros espaços de viagens interiores e perdidas do protagonista, por isso mesmo periféricas. “A Avenida da Ópera abria-se perante mim. Anunciava outras avenidas outras ruas que nos levariam daí a pouco aos quatro ponto cardeais. O meu coração batia um pouco mais depressa. No meio de tantas incertezas, os meus únicos pontos cardeais de referência, o único terreno que não me fugia debaixo dos pés, eram os cruzamentos e os passeios dessa cidade onde acabaria, sem dúvida, por me encontrar só”.

in http://cadernetaliterariadaanita.blogspot.pt/2015/04/as-avenidas-perifericas.html

Patrick Mondiano "Avenidas periféricas"

http://www.publico.pt/n1678923

domingo, 29 de março de 2015

O da Joana de Valério Romão

o_da_joana
O da Joana
Autor: Valério Romão
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 156
ISBN: 978-989-98019-8-1
Ano de publicação: 2013
No seu romance anterior (Autismo), Valério Romão colocava, durante muitas dezenas de páginas, um casal consumido pelo desespero à porta de uma urgência hospitalar, ansiando por notícias que nunca chegavam sobre o filho de seis anos, atropelado horas antes. A espera kafkiana face ao muro da intransigência burocrática era a metáfora perfeita da incomunicabilidade que ferira de morte a família – o autismo do filho a desencadear ondas de choque, como uma «bomba com retardador» que de repente explode. Em O da Joana, segundo volume da trilogia «Paternidades falhadas», reaparece a figura opressiva do hospital, mas desta vez tudo (ou quase tudo) decorre lá dentro, um espaço claustrofóbico, asfixiante, espécie de inferno onde uma mulher grávida é condenada a dar à luz um nado-morto.
A narrativa não se fecha logo nas salas e corredores da maternidade, começa antes numa animada festa, sobre a qual paira, no travo melancólico da alegria suburbana, uma espécie de aviso ou prenúncio do que nos aguarda. Valério descreve tudo com minúcia, numa prosa rápida, elástica, abrangente, feita de panorâmicas e zooms, como num documentário que a National Geographic fizesse sobre nós, humanos, esses primatas no fundo tão semelhantes nas suas «pulsões mais profundas e genuínas». Fala-se, por exemplo, do «magnetismo» primário que faz com que as mães sejam atraídas pelo choro dos filhos, seguindo o instinto de «um coração feminino devidamente calibrado». E é aqui que a história inicia o seu deslize para um «alto-mar existencial no qual tudo quanto há se desnuda na inexistência de terra firme». No meio da confusão, Joana procura um bebé que chora algures num quarto, encontra-o, identifica uma fome que se apressa a saciar com um mamilo «de onde despontavam já (…) bolsas microscópicas de leite», para logo dissolver este momento íntimo em algo mais perturbante, à medida que as carícias no bebé se transformam numa «apneia» de «prazer dúbio dos sentidos que se confundem», concluída num orgasmo.
Quando o leitor descobre que o filho não é dela e a mãe verdadeira se prepara para um confronto de pura energia animal, instala-se uma «arritmia da normalidade». Saber que tudo não passou de um pesadelo gera talvez um sentimento de alívio, até porque sinaliza o rompimento das águas e o início da corrida para a maternidade, onde Joana espera cumprir o sonho alimentado durante oito anos de obsessão, durante os quais preparou a sua vida, ao milímetro, em função do filho que um dia haveria de chegar. O problema é que a «arritmia da normalidade» é transposta do mundo onírico para o mundo real. Se, no sonho, ela fazia coisas «próprias do escuro», embaraçosas «porque não são próprias de mim», essas coisas perseguem-na na vigília, uma vez que o corpo continua a perder-se, «assim que eu viro as costas à lucidez e abro mão da consciência».
A perdição do corpo, neste caso, assume a forma de um silêncio: dentro da mãe, o coração do Francisco deixou de bater. É esta tragédia que acompanhamos momento a momento, sem elipses nem pausas para respirar, até ao paroxismo do arrepiante desenlace, numa vertigem de realismo cru e visceral sem paralelo na literatura portuguesa. Entre o corpo e a dor, «desabam as fronteiras que permitem que o primeiro localize e contenha a última». E nós assistimos a esse desabamento que, numa Joana transformada em «barco sem tripulação, abandonado à sua sorte», corresponde ao desabamento da própria realidade. Terrível, duríssimo, admirável, este é um romance que traz à luz feridas e angústias, sem anestesia, a frio, mas com a delicadeza de quem respeita infinitamente o lado mais brutal da vida.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

in Bibliotecário de Babel

Leitura de Julho

"A casa dos espíritos" de Isabel Allende   "Empúsio" de Olga TokarczuK