domingo, 24 de dezembro de 2023

Natal - Poema de David Mourão - Ferreira

 

Ladainha dos Póstumos Natais


Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira, in 'Cancioneiro de Natal'

A Morte

 Este ano foi demasiado violento para mim.

Depois da morte da minha mãezinha no final de 2017, o meu pai e o meu marido, o meu sogro e a única cunhada deixaram-me este ano.

Ganhei uma doença oncológica.

E mais umas preocupações.

A ideia de Morte e de Luto está agora muito presente. 

Às vezes apetece-me ir também mas penso em quem ficou e nas suas circunstâncias.

Sobreviverei.


Leitura de Julho

"A casa dos espíritos" de Isabel Allende   "Empúsio" de Olga TokarczuK