quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Medo

Um dia, feito o silêncio da minha inquietude, caminhei à beira do precipício do medo, feito   fragilidade.
Sem dores e evitando confrontos, sigo em frente. Ser eu,  numa  sorte de vácuo, asfixiada pela ausência de razão.
Chego sempre atrasada ao encontro das minhas emoções.
Tal qual pardal assustadiço e inseguro.
As mãos, as pernas, a alma tremem. O coração também.
Incertezas que decorrem da vida e dos sentimentos.
Sou e estou.
Quero e pareço.
Não fujo. A realidade persegue-me tal sono sobressaltado e superficial.
Este sono sonho,  que me consome agora, a minha irrealidade.
Avanço.
Insegura.
Devagar.
Reflito na vida que desliza vertiginosamente.
Já não posso voltar atrás. 

domingo, 18 de janeiro de 2015

Contrariedades

Contrariedades

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redação, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras exceções merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingênuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exatos,
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe umedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!

Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde' 

Viver sempre também cansa

Viver Sempre também Cansa

Viver sempre também cansa.

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

José Gomes Ferreira, in 'Viver Sempre também Cansa' 

As ondas

Por Alexandra Lucas Coelho 
Poucos romances, em todo o século XX, nos mostraram tão intensamente como a literatura podia ser ainda uma coisa nova e viva
Podemos começar pelo que este livro não é, para arrepiar caminho. E para isso, tomemos de empréstimo o que dele disse Jorge Luis Borges: "Não há argumento, não há conversa, não há acção." Era um cumprimento. E Virginia Woolf estaria de acordo. Assim, solto da ganga romanesca e dentro da cabeça que pulsa, o quis ela, desde o princípio.
Em Novembro de 1928 - tinha ela 44 anos, e era já a autora aclamada de "Orlando, "Mrs. Dalloway" ou "Rumo ao Farol", três dos seus mais notáveis romances -, escreveu Virginia Woolf no seu diário: "Quero eliminar todo o desperdício, todas as coisas mortas, o supérfluo: dar o momento inteiro, com tudo o que faz parte dele. Digamos que o momento é um misto de pensamento, de sensação, a voz do mar... Esse medonho assunto da narrativa realista, avançar do almoço para o jantar, é falso, irreal, meramente convencional. Porquê admitir algo na literatura que não seja poesia - até à saturação, mesmo? É isso que quero fazer em 'As Mariposas'"
"As Mariposas" foi, entre 1928 e 1929, o título provisório desse projecto, dessa "tentativa completamente nova" no interior da literatura. Depois, quando Virginia Woolf se lembrou "de repente" (a expressão é dela) que as mariposas só voam de noite, mudou o título para "As Ondas". E no Outono de 1929 começou a escrever aquela que viria a ser considerada por muitos (não Borges, que preferia "Orlando") a sua obra-prima.
Bernard, Neville, Louis, Jinny, Susan, Rhoda. Seis personagens, seis vozes que falam, não umas com as outras, não para fora, mas dentro de si - há ainda uma sétima personagem, Percival, que a todos fascina, mas que nunca escutaremos.
Cada fala destas seis personagens (seis faces de um rosto único?) é a torrente caótica e fabulosa de imagens e palavras que se forma dentro da cabeça em minutos, em segundos. São eles - as suas vozes, sempre em discurso directo - que nos levam através do seu percurso, da infância à maturidade, em nove etapas. O livro percorre, nessas etapas, o tempo da vida humana.
Mas há um outro tempo, paralelo, sem personagens, sem fala, antes de cada etapa: uma descrição da viagem que o sol faz ao longo de um dia, e do efeito desse movimento numa paisagem com mar. As ondas quebram-se assim, sincopadamente, tal como bate o coração. 

http://static.publico.pt/docs/cmf/autores/virginaWolf/amanha.htm

Virginia Woolf Documentário

                   
                       http://youtu.be/2Hnlsh8WyPE

As ondas

Em nove nítidos e distintos movimentos, três homens (Bernard, Louis e Nevville) e três mulheres (Susan, Rhoda e Jinny) monologam sobre suas vidas, da infância à velhice. Em contraponto, o Sol tece seu percurso diário sobre o mar. Há uma sétima voz, ausente, Percival, que jamais se manifesta, aparecendo apenas em referências dos outros personagens. Por volta do meio-dia, no quinto movimento, o Sol e as vidas de cada um começam a declinar. Se até esse momento cintilava o brilho das descobertas a serem feitas, das coisas a serem vividas, à medida que a noite se aproxima, aproxima-se também a solidão inevitável da velhice.
Diz Jinny: “Esta é a pausa de um momento: o momento sombrio. Os violinistas erguem seus arcos”. E, quando, os arcos tocam as cordas, inexorável como o movimento do dia, a vida desaba. É Bernard quem reconhece: “Durante todo o dia de trabalho, em intervalos, minha mente ia a um lugar vazio, dizendo: ‘O que se perdeu? O que terminou?’ E murmurei: ‘Acabou, acabou’ “. Como temas de uma peça barroca, enovelam-se os altos e baixos de esperanças e frustrações, cada vez mais próximos da dura consciência de que um ser humano pouco ou nada pode fazer pela solidão do outro.
Em 1930, Virginia anotava em seu diário, referindo-se a um romance provisoriamente intitulado Os Efêmeros: “Acho que este é o mais complexo e o mais difícil de meus livros. Como terminá-lo, a não ser por uma enorme discussão na qual cada vida terá sua voz, uma espécie de mosaico, não sei”. Um ano depois, saía a primeira edição de As Ondas, que chega ao Brasil quarenta anos depois do suicídio da autora, em excelente tradução de Lya Luft.
Apesar da insegurança inicial, Virginia Woolf parecia compreender perfeitamente a grande obra que estava compondo. Assim, rompendo radicalmente com as normas ficcionais da época, ela solidificou a originalidade narrativa numa estrutura quase matemática. Talvez por isso a soberba técnica de As Ondas aproxima-se muito mais da música erudita, como observou sua tradutora francesa, Marguerite Yourcenar, que da literatura.
Ao final do dia, para os seis personagens, resta ainda uma última batalha a ser travada, contra a morte – batalha que a própria Virginia abreviou jogando-se no rio Ouse. Sua sensibilidade não passou impune mas, neste romance perfeito como uma composição de Bach, fica registrada a sensação de que, talvez, “por um momento, nossa vida se ajusta à majestosa marcha do dia através do céu”.
Caio F. Abreu
Publicada na Revista Veja, em 21 de janeiro de 1981

Leitura de Julho

"A casa dos espíritos" de Isabel Allende   "Empúsio" de Olga TokarczuK