sexta-feira, 19 de julho de 2013

Dentro do segredo de José Luís Peixoto

http://www.joseluispeixoto.net/69948.html









As rosas de Atacama de Luís Sepúlveda

SINOPSE
"Um dia, no campo de concentração de Bergen Belsen, na Alemanha, Luis Sepúlveda encontrou gravada numa pedra uma frase de autor anónimo que dizia: «Eu estive aqui e ninguém contará a minha história.» Essa frase trouxe-lhe à memória toda uma galeria de personagens excecionais que havia conhecido e cujas histórias mereciam ser contadas. Assim nasceu o presente livro, As Rosas de Atacama. «Histórias marginais» (aliás o título da edição original espanhola), e também histórias de marginais, os relatos que compõem esta obra têm todos os ingredientes a que Luis Sepúlveda habituou os seus leitores: a defesa da vida e da dignidade humana, a luta pela justiça, o elogio dos valores ecológicos, o exotismo como afirmação de que os sonhos são os mesmos em todos os lugares da Terra. Como em todos os livros de Sepúlveda, também neste a realidade supera a ficção."

Relembro o mármore de Carrara:

“a região de Carrara cobra entre seis a oito vidas decavatori por ano. Durante o funeral, o único artista presente disse que aqueles dois cavatori eram mártires que tinham morrido pela arte. Mas outro daqueles trabalhadores cuspiu o charuto barato que lhe pendia dos lábios e precisou: não, morreram porque falta segurança, morreram por um salário de merda.”

"Hoje preferia não me ter encontrado" de Herta Muller

Em “Hoje preferia não me ter encontrado”, Herta Muller interroga tudo, de forma dura e sem piedade, não se colocando no exterior do objecto de análise. Todos são vítimas e culpados da alienação da liberdade individual. Os vigiados também vigiam e os vigilantes têm medo de ser vigiados.
“eu” narrativo permite a aproximação dos acontecimentos narrados à dor e experiência própria da autora. Herta Muller, romena e nascida numa comunidade de língua alemã, esteve sob o regime fascista de Antonescu e, posteriormente, sobre o regime comunista de Estaline. A própria mãe da autora foi deportada, juntamente com cerca de 80 mil romenos de língua alemã, para um campo de trabalhos forçados.

A narradora viaja sentada num eléctrico com destino a mais um interrogatório. Enquanto o eléctrico avança, a sua memória recua e revela segredos e recordações mais ou menos distantes.
No decorrer da leitura percorremos círculos concêntricos em torno de um sentimento de desagregação humana, seja na sua individualidade ou sociabilidade.
A beleza é deturpada e destruída: Albu, o interrogador, beija-a na mão deixando um rasto de cuspo enquanto lhe aperta os dedos até ela quase gritar de dor; na foto do casamento com Paul, os dois estão de cabeça encostada, num dia feliz, mas no presente mais lhe parecem as duas ameixas, símbolo da aguardente com que o marido diariamente se embebeda.
As ligações familiares incluem o seu ex-sogro, um “comunista perfumado”, que deportou os avôs dela e nacionalizou os respectivos bens, o desejo erótico pelo seu pai e o decadente casamento com Paul que se autodestrói devido ao álcool.
O “comunista perfumado” afirma que o tempo em que os avós dela passaram dentro de uma campo de detenção já lá vai e que são somente desculpas para não terem vencido na vida. A ironia de se “ouvir” deste personagem uma frase baseada no “darwinismo social” e tão ligada ao capitalismo exemplifica a presença constante da ironia em “ Hoje preferia não me ter encontrado”
O presente fecha qualquer esperança e tenta enterrar e branquear um passado de dor. A memória, essencial ao património cultural da sociedade e do indivíduo, é pressionada pelo esquecimento. Herta Muller luta pela manutenção da memória, contra a paranóia e a loucura.

Já divorciada do primeiro marido e em casa de Paul, ela pergunta-lhe o que é um comunista.
“Quem era suficientemente pobre tornava-se comunista. E também muitos ricos, que não queriam ir para os campos de trabalhos forçados. Agora o meu pai [fascista e, posteriormente, comunista] está morto e, tão verdade como o céu existir, lá em cima ele diz que é cristão.” Pág.173
Ela e Paul são despedidos por práticas subversivas contra o Estado. A deterioração económica acentua-se.
“Aquilo de que precisam eles [os russos] mandam despachar para Moscovo e empanturram-se com o nosso cereal e a nossa carne. A fome e a porrada eles deixam para nós.” Pág. 29
Apesar de a desconfiança estar enraizada devido a questões histórico-políticas (fascismo e comunismo), alguns elos afectivos ainda prevalecem. Lilli, amiga e colega de trabalho da narradora, é a única pessoa, além de Paul, em quem ela confia. No entanto, ela é assassinada a tiro e esventrada pelos cães quando, motivada pelo amor a um homem, tenta ultrapassar a fronteira com a Hungria. A presença rara destas relações sublinha a substituição do afecto pela desconfiança e paranóia entre as pessoas.

A sociedade está dividida entre ostentação e pobreza, onde as classes sociais mais desfavorecidas sofrem com o flagelo do álcool, e a liberdade de expressão não passa de um conceito impraticável.
 “O nosso socialismo até põe os seus trabalhadores a sair da indústria em pelota…” pág. 86
A vida, a rotina diária, é pesada e os dias arrastam-se uns atrás dos outros.
“ Seria pedir de mais que as coisas a que me habituei me servissem de alguma coisa. Elas até servem de alguma coisa, mas não a mim. Quer dizer, servem quando muito à vida, a vencer o dia. Mas não se espere que elas nos encham a cabeça de felicidade” Pág. 24
A redução do humano ao seu instinto animal é sublinhada no episódio da feira da ladra, dia em que conhece Paul, onde muita gente precisa de usar uma decrépita casa de banho pública. O polícia encostado à parede abdica de exercer autoridade perante a desordem. E a ansiedade domina as pessoas que esperam para entrar no pútrido cubículo. A avaliação da narradora é mordaz.
“Só lá fora voltei a ser um pedaço de esterco humano” Pág. 144


 “Hoje preferia não me ter encontrado” é um texto pleno de ironia, despido de autopiedade e muito crítico em relação a ideologias, à sociedade dessa altura e ao próprio indivíduo.
Herta Muller não poupa nada nem ninguém.
“Neste entardecer vermelho da cidade, o que agora se recomenda é a cegueira, há olhos de vidro para todos. Mas os pregos do caixão troam especialmente por aqueles que querem construir a sua felicidade dançando ao som de uma canção em que a gente se farta do mundo.” Pág. 117

Mel de Ian McEwan

Serena Frome é uma jovem mulher apaixonada por leitura, mas boa o suficiente com números para se ver pressionada a fazer algo a respeito. Formada em Matemática pela Universidade de Cambrige sem destaque algum, no entanto, ela sabe nunca foi nenhum gênio. É após escrever um artigo literário que sua vida muda.

O que o destino reservava para Serena não era um caminho no mundo das palavras. Bem, talvez até seja, mas depende do ponto de vista. Uma série de encontros e desencontros envolvendo o professor Tony Canning acabam levando-a até a MI5, o Serviço Secreto Britânico, que por sua vez leva até a missão que consiste em manter contato com Tom Haley, um escritor a quem não pode contar que é uma espiã, nem que o dinheiro que ele passará a receber virá do Estado, nem muito menos que o grande objetivo por trás de sua chegada é influenciar a obra. Serena acaba apaixonada por Tom, mas mal sabe ela que ainda há muito mais água a rolar do que poderia imaginar.
Eu era a mais simples das leitoras. Só queria o meu mundo, comigo dentro, devolvido para mim de maneiras artísticas e de uma forma acessível.
Serena é um livro para ser digerido, e não engolido. Ele deve ser pensado, apreciado com calma. Abordando temas como a crise econômica e política da Inglaterra dos anos 70, a Guerra Fria e o serviço secreto, nem por isso ele é sobre ação, espionagem ou, apesar dos casos amorosos, romance. Esse é um livro sobre conexões, significados, referências.

Foram várias as vezes em que me peguei pensando que a protagonista-narradora poderia muito bem estar expondo uma espécie de diário. A narrativa em primeira pessoa passa uma sensação de intimidade e por vezes também a de exagero de detalhes. Nada imperdoável ou massante, mas presente. Pode parecer estranho ter estado em espera por tanto tempo e ao mesmo tempo sedenta por mais desse estado de suspensão agora, porém fui privada de pensamentos do gênero até muito depois de terminar a leitura.
Na minha opinião havia um contrato tácito com o leitor, que o escritor devia honrar. Nenhum elemento de um mundo imaginário e nenhum dos seus personagens deveria poder se dissolver por causa de um capricho do autor. O inventado tinha de ser tão sólido e consistente quanto o real. Era um contrato que se baseava numa confiança mútua.
Acredito que quem tem maior conhecimento histórico poderá desfrutar muito mais o que vai encontrar. Só para citar um exemplo: Serena é filha de um bispo anglicano e tem uma irmã hippie e envolvida com drogas. Pode não parecer grande coisa, mas isso faz diferença se formos levar em consideração o cenário do país na época, os próprios personagens etc. Sãos muitos os pequenos detalhes que podem fazer toda a diferença.

Com regras, sedução e um final surpreendente, Serena é um prato cheio para aqueles que se propõem a buscar leituras inteligentes. E que fique aqui um destaque para a questão da inteligência absurda. Sim, é ele que vai ditar o ritmo. Sim, é ele que vai ditar até as emoçõesque vão te atingir. A pergunta é: você está pronto para ser tomado de assalto?

O Mar de John Banville

 Max Morden viaja até uma cidadezinha do litoral,  na Inglaterra, onde costumava passar as férias de verão. Conhece a família Grace: os gêmeos Myles e Chloe, os pais Carlo e Connie, e a governanta Rose. O relacionamento de Max com os Grace mostra um período de descobertas variadas, típicas da adolescência. Uma mistura de sentimentos, de experiências, de vivências se desenrolam.

Em paralelo, Max conta de seu convívio com a mulher, Anna e de seu relacionamento com a filha.

A narrativa oscila entre o presente e o passado, dando uma impressão de lentidão, de que estória não caminha, mas que apenas momentos desconexos são lançados no papel. É preciso persistir na leitura para descobrir o porquê desta forma narrativa. Nas páginas finais, descobre-se aonde Banville quer chegar e tudo se clareia.

Tive a nítida impressão de que a narrativa reflete a memória esfumaçada, enevoada. Fatos e eventos são lembrados - por vezes com muitos detalhes, por vezes com detalhes confusos - de formas variadas, mas estas peças do quebra-cabeça somente se encaixam no final do livro. Talvez o livro retrate um emaranhado de peças que precisam ser encaixadas, descortinando a figura final somente no epílogo. É uma linda metáfora da vida e da transitoriedade da vida.

A morte e a dor da perda são presenças constantes no livro, razão pela qual Max volta à cidadezinha de veraneio. Tenta reconciliar-se com o passado, entender o que aconteceu e como sua vida mudou nestes anos. Max precisa reencontrar-se para seguir em frente e perceber que a vida é um constante caminhar.

Leitura de Julho

"A casa dos espíritos" de Isabel Allende   "Empúsio" de Olga TokarczuK